O Judeu

Camilo Castelo Branco

Humanities

História da vida trágica de António José da Silva, o mais famoso dramaturgo português do seu tempo que acabaria posteriormente por morrer na fogueira às mãos da Inquisição.

No local onde gemiam judeus, hereges e feiticeiros, uma vez por outra, geme a arte; e eu, desgraçadamente, deste ofício tão santo como o outro, também tenho sido inquisidor.

Publicado em 1866, a obra “O Judeu” de Camilo Castelo Branco é um romance histórico de homenagem àquele que se tornou na figura representativa dos milhares de judeus portugueses que morreram pela Inquisição entre 1540 e 1794, em Portugal.

António José da Silva, a que a história apelidaria como “O Judeu”, nasceu no Rio de Janeiro em 1705, numa família de origem judaica erradicada no Brasil cujos membros se proclamavam como “cristãos novos”, ou seja judeus que tinham renegado à sua fé e convertido à ao cristianismo. Porém, em 1712, quando o jovem António José da Silva contava com apenas 7 anos, a comunidade de cristãos novos, na qual a sua família se inseria, foi vítima de perseguições e acusações de heresias. A sua mãe, Lourença Coutinho, foi acusada de manter e praticar a fé judaica secretamente e foi deportada para Lisboa para ser processada pela Inquisição. O seu pai, advogado e poeta João Mendes da Silva, partir para Portugal, levando o jovem António consigo, para estar próximo de sua mulher e graças à sua influência conseguiu salva-la da fogueira.

António José da Silva foi assim criado em Portugal onde recebeu uma educação estritamente católica na escola; mais tarde entrou para a Universidade de Coimbra onde tirou o curso de Direito, chegando depois a exercer advocacia, paralelamente à atividade escrita, tal como o pai o fizera antes. Foi um escritor profícuo, incorrendo sobretudo pela dramaturgia onde escreveu várias sátiras a criticar a sociedade portuguesa da época. As suas comédias foram encenadas frequentemente em Lisboa e no Porto nos anos da década de 1730, gozando sempre de grande popularidade, e eram conhecidas como as peças do “Judeu”, título do qual o próprio se orgulhava. A sua obra teatral inspirava-se no espírito e na linguagem do povo, rompendo com os modelos clássicos e incorporando o canto e a música como elemento do espetáculo.

Influenciado pelas ideias igualitárias do Iluminismo francês, escreveu um dia uma sátira (hoje perdida) a promover o igualitarismo social, o que serviu de pretexto às autoridades para prendê-lo, acusado de práticas judaicas. Foi torturado, tendo ficado parcialmente inválido durante algumas semanas. Depois de assinar a sua “reconciliação” com a Igreja Católica foi libertado mas nem a sua vida, nem o seu trabalho seriam os mesmos. A sua prisão levantou alguns rumores de contestação contra a Inquisição já que António José da Silva era um artista e escritor muito acarinhado pelo público, mas isso apenas fez com que a Igreja o mantivesse a ele e ao seu trabalho sob apertada vigilância.

Anos mais tarde, talvez devido às rivalidades um dramaturgo concorrente, talvez devido as denúncias vindas dentro da própria Igreja que não via com bons olhos o espírito irreverente das suas peças cómicas e satíricas, o que é certo é que a sua mulher foi, tal como anteriormente tinha sido a sua mãe, acusada de heresia por praticar o judaísmo. Por defende-la António José da Silva foi novamente torturado. Descobriram que ele era circuncisado, o que lhe agravou a acusação.

Num processo que decorreu (sabe-se hoje) com notória má-fé por parte do tribunal, António José da Silva foi condenado, apesar de a leitura da sentença deixar transparecer que ele não praticava o judaísmo. Foi garrotado, ou seja, cortando-lhe o pescoço com um garrote, e depois queimado num Auto-de-Fé em Lisboa em Outubro de 1739, onde hoje é o Terreiro do Paço.

Camilo conta aqui a história da sua vida num romance histórico cheio de pormenores da época e detalhes verídicos, muito devido a um estudo de investigação e leitura dos processos de condenação da Inquisição que sobreviveram e não foram, convenientemente, destruídos. Algo que pode parecer invulgar para um autor que se notabilizou pelas suas novelas românticas, mas se tomarmos atenção, há sempre nas obras camilianas fatores históricos e verídicos que se cruzam com o trama das histórias ficcionais que criou, para além de que Camilo enveredou por outras áreas literárias sem ser a Novela. “O Judeu” não é, de facto, o único Romance Histórico de Camilo, mas é, possivelmente o mais detalhado e inspirador.

Para além deste Romance de Camilo, a vida de António José da Silva  tem servido de inspiração a várias obras, tanto na literatura, como no teatro e no cinema. Bernardo Santareno, por exemplo, considerado o maior dramaturgo português do século XX, e também ele judeu, escreveu uma peça sobre a sua vida que, curiosamente, faz um paralelismo entre a Inquisição e o regime Salazarista que se vivia na altura.

O processo judicial da Inquisição contra António José da Silva sobreviveu e encontra-se atualmente na moderna Torre do Tombo.

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